Escolhas
Ontem fui ao médico, depois de uma certa idade isso se torna uma rotina. Sabe aquelas coisas como escovar os dentes, dormir, acordar, sim ir ao médico depois que você chega aos 70 anos se torna uma necessidade fisiológica.
O Dr. Nascimento é um bom médico, simpático, até bonitão, tem por volta de seus 60 anos, cabelos grisalhos, uma voz tão calma que quase durmo na cadeira quando ele começa a conversar comigo. Nos conhecemos há 30 anos, de lá para cá o que era uma consulta de rotina a cada 2 anos, passou a ser uma consulta mensal, e nestes últimos 2 meses quinzenal. Acho que ele se apaixonou por mim! Será?
Pela primeira vez em 30 anos vi o Dr. Nascimento com uma fisionomia muito séria, não fez as bricadeiras habituais, e começou dizendo que as notícias não eram boas. Fiquei pensando, quando um médico nos dá notícias boas? Um tempo atrás, lembro que após ver todos os meus exames ele disse que eu tinha uma saúde de ferro, mas era necessário eu caminhar todos os dias (desde quando caminhar todos os dias é uma coisa boa?), eu falei que vivo arrumando minha casa, vou ao mercado quase todos os dias, viver sozinha não me dá o privilégio de ter alguém para fazer estas coisas, então eu tenho q fazer. Ele respondeu com um sorriso muito carinhoso “- Dona Magnólia, a senhora sabe muito bem que isso não é caminhar, não me venha novamente tentar me enrolar, estou de olho na senhora!”
Voltei a prestar atenção quando ouvi ele falando, “infelizmente não tenho mais como ajudar neste caso, o tumor avançou para o pulmão”, parece que levei uma sacudida, sabe quando você esta sonhando e do nada vem alguém e te acorda? É meu coração estava acelerado, acho que senti isso a última vez quando conheci Pedro. Ah Pedro, foi mais que um companheiro, foi meu parceiro, amigo, nos divertimos muito mesmo, para ele não tinha nada impossível e eu como sempre era o chão, a terra, o freio, pensando agora acho que meu amor matou o Pedro. Nos conhecemos já em idade madura, eu tinha 40 anos e ele 35. Pedro era advogado, e me foi apresentado por uma amiga para mover uma ação contra o local que eu trabalhava. Alegre e divertido, logo fizemos amizade. Dos encontro de trabalho surgiu um almoço, depois um jantar e logo já estavámos fazendo sexo em um descampado sob o capo do carro, ouvindo Creed. Não sei se tinha estrela no céu, ou se eu pintei aquele céu estrelado. Ele não parava quieto, estava sempre envolvido em projetos sociai
s, ajudas voluntárias, e trabalhava cerca de 10h diariamente. Mas todos os finais de semana íamos viajar, fazer algo diferente, nossa esse homem era incansável. Eu o acompanhava em tudo, mas havia dias que eu queria ficar quieta, sozinha, e isso ele nunca entendeu. Quantas vezes ele me chamou para saltar de asa delta, fazer trilha e rafting? Nunca fui, e ele foi deixando de fazer isso. Não que eu impedisse, mas ele queria fazer coisas que gostava comigo, e eu, não tinha coragem essa é a verdade. Desde de muito nova sempre tive medo de altura. Aliás o medo sempre me impediu de fazer coisas prazerosas, como por exemplo viajar pelo mundo. O sonho de Pedro era largar tudo e sair pelo mundo. Engraçado, quando eu era mais jovem eu tinha esse mesmo sonho, mas nunca tive coragem de largar minhas coisas, minha vida certinha para viver essa aventura. Pedro morreu novo, com 55 anos, teve uma parada cardíaca. Não tivemos filho, mais uma aventura que não quis por medo. Sempre o medo. Algo que nunca assumi que tivesse.
Meus olhos se encheram de lágrima e o Dr. Nascimento segurou minha mão. Era o medo novamente. Perguntei o que poderia fazer, ele disse que nada, que ele podia passar apenas remédios para dor, pois logo começaria a sentir. Perguntei quanto tempo de vida ainda me restava, ele disse pouco mais que um mês. Neste momento um grande buraco se abriu no chão, me vi caindo com cadeira e tudo, interminável esse buraco. Lembro apenas de ter fechado os olhos, afinal, esqueceram que tenho medo de altura? Mas a sensação não era ruim, sentia-me leve, um friozinho no peito, e logo pensei, caramba deve ser isso que sentimos quando saltamos de asa delta! Resolvi abrir os olhos. E lá estava o Dr. Nascimento, com um copo de água na mão, pedindo para eu ter fé.
Fé? Esse homem deve estar brincando comigo. Tenho 70 anos, estou com uma doença terminal, tudo que tive até aqui, tive que batalhar duramente, Deus nunca esteve ao meu lado, me levou a única coisa que valeu minha vida, Pedro, e agora estou morrendo, e onde Ele está? Percebi que não tinha pensado e sim falei tudo aquilo, e o Dr. Nascimento com sua postura equilibrada e sempre gentil, se afastou e apenas disse. Deus sempre esteve com a senhora Dona Magnólia, mas a senhora sempre esteve ocupada para Ele. Levantei imediatamente e falei, é só isso? Ele apenas balançou a cabeça e eu sai, sem ao menos agradecer pela consulta.
Acho que quando estamos com uma bomba relógio dentro de nós, começamos a repassar a vida. Mas algo estava diferente, ouvi um passarinho cantando logo quando sai do consultório, e pensei, nossa, passarinho cantando aqui? Continuei caminhando e uma criança que estava dando seus primeiros passos encostou nas minhas pernas e abraçou, olhei para baixo, aquele pequeno ser, e ela abriu uma gargalhada que eu não pude segurar, retribui o sorriso.
Continuei caminhando, estava um calor de matar, fui comprar uma água, olhei para a freezer e tinha um sorvete que sempre que via na TV eu sentia vontade, mas com estas “ITES” da vida, nunca mais tomei um sorvete, mas naquele momento pensei: “Por que não?” Nossa parecia que eu nunca tinha tomado um sorvete na minha vida.
Voltei para casa e comecei a escrever minha metas para as próximas 4 semanas, precisava planejar tudo direitinho, mesmo porque tenho dois cachorros e um papagaio, quem ficará com eles?
Preciso contratar alguém para ficar comigo, não tenho parentes, aliás, tenho um irmão e dois sobrinhos, mas desde que minha mãe faleceu eu nunca mais tive notícias.
Mas as palavras do Dr. Nascimento não saiam de minha cabeça: “Deus sempre esteve com você!”.
Deixei a caneta de lado e comecei a olhar em volta, onde é que Deus estava?
Começou a passar um filme… tudo de ruim que tinha me acontecido nestes 70 anos e agora isso. Deus?
Senti um cansaço e encostei no sofá por alguns minutos.
Logo estava em um local imenso, cercado por um lindo campo verde. Nossa cada árvore imensa! Ouvi alguém me chamando, meu corpo estremesseu, não podia ser aquela voz. Uma voz rouca, amável, que mesmo após tanto tempo ainda fazia minhas pernas tremerem, sim, era Pedro. Meus olhos encheram de lágrima e fui ao seu encontro e nos abraçamos por um longo tempo, sem dizer uma palavra, apenas sentindo algo que só posso descrever como vida.
Após algum tempo nos olhamos e ficamos calados… apenas olhando um para o outro com os braços dados… isso era uma das coisas mais sensacionais que tínhamos em nosso relacionamento, o silêncio nunca foi ruim. Após algum
tempo, eu rompi o silêncio e perguntei como ele estava, por qual motivo ele tinha me abandonado, onde estavamos. Ele respirou fundo e respondeu suavemente: – “Calma, você sempre querendo saber de tudo”.
Pedro começou a contar sua grande viagem. De como foi sair das zonas infernais, da solidão e tristeza que sentia, principalmente quando pensava em nós. Mostrou como há vida sempre, mais do que eu nunca pudesse entender, e que viveu no escuro, sem conhecer “O caminho a verdade e vida!” Terminou dizendo que não queria que eu passasse por tudo que ele passou, que eu tenho que acordar e aproveitar cada segundo da minha vida, ou do que me resta para me livrar de tudo que não me serve e agregar o bem, a caridade, a verdade, a gratidão e principalmente a fé.
Acordei com a Jade latindo. Ainda um pouco tonta, não sabendo o que era real, mas sentindo o cheiro do Pedro, e o calor de seus braços. Tudo que falou ficou fervilhando minha cabeça. Não é fácil aos 70 anos e com dias contados entende
r tudo que Pedro disse.
Mas entendi o princípio do que ele me disse.
Uma coisa eu sei, tenho duas escolhas, ou vou passar os dias que me restam reclamando de tudo e me entregar, ou levantar e seguir, vivendo cada dia de uma vez, acreditando que existe sim vida além da vida, que eu posso ser um ser melhor e que “Deus” está em mim, e está em tudo que eu faço, penso ou falo, então devo ser o melhor que eu posso. Isso é acreditar, isso é ter fé!
“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo….qualquer um pode recomeçar e fazer um novo fim.”
Chico Xavier
ॐMaha Victória
